“Sou muito mais feliz vivendo do bordado”
Por Odara Creston

Rebeca não borda enfeites; ela costura silêncios, grita com o gesto, traduz o invisível. Crédito: Arquivo Pessoal
Rebeca Bento, neta e sobrinha de artesãs, trabalha há cinco anos com o bordado, tradição que permanece em família. Formada em Design de Moda pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ela conta que, desde a infância, ficava encantada ao observar a avó e a tia darem forma às suas peças.
Ao crescer, deixou o artesanato de lado, mas nunca abandonou a criatividade nem o gosto pela costura. Depois de se formar, em 2019, seguiu carreira como produtora de estampas, mas, após algumas desilusões na profissão, decidiu se arriscar novamente no trabalho manual. “Nos 15 dias que, na verdade, duraram quase dois anos de isolamento social, voltei para o bordado”, relembra.
Rebeca admite que não é fácil viver exclusivamente da renda do bordado, mas afirma sentir-se muito mais realizada com o que faz hoje. “Voltar para o artesanato foi voltar para mim mesma, sou muito mais feliz vivendo do bordado”, resume.
Rebeca Bento
Bordados temáticos para datas comemorativas
“Ato de coragem em dobro”
Por Odara Creston

Bárbara Banida pesquisa as
relações entre a arte e o universo LGBTQIAPN+. Crédito: Arquivo Pessoal
Bárbara Banida é esculturista, performer e gerente cultural. Define seu trabalho como artista como uma “união de existência, ancestralidade, espiritualidade e economia”. A arte sempre a acompanhou desde a infância, o seu primeiro contato foi com o bordado. “Sempre tive muito apreço por manualidades”, recorda.
“O contato com a terra e com a massinha de modelar formaram muito da artista que sou hoje. Vejo o fazer artesanal como uma forma de resistir e de me conectar com a história da minha família, marcada por gerações de artesãs.” Bárbara acredita que o artesanato cearense é “uma força cultural em crescimento e uma arte contemporânea que precisa de cada vez mais reconhecimento”.
Seu processo criativo é de dentro para fora. Para ela, o artesanato é um gesto íntimo, que nasce do interior. “Sinto que ser artista é, por si só, um ato de coragem. E ser, no meu caso, uma mulher trans e artista, é um ato de coragem em dobro, em triplo, e quádruplo”, reflete.
Bárbara Banida
Esculturas e outras materialidades
“A arte me achou”
Por Odara Creston

Patty se destaca pelo trabalho em madeira e pelo vínculo afetivo com o artesanato. Crédito: Arquivo Pessoal
Nascida e criada no Cariri, sul do Ceará, Patty Lima fala sobre seu artesanato com orgulho e esperança. Filha de artesãos, ela cresceu cercada por arte e acredita que o destino já estava traçado: o artesanato sempre faria parte de sua vida.
Escultora em madeira, Patty costuma dizer que foi a arte quem a encontrou – e seu maior desejo é que ela “viaje o mundo todo”. Esse sonho começou a se realizar recentemente, quando viajou ao exterior para expor seu trabalho. “Criei peças inspiradas no Boi Bumbá, que é um grande representante da nossa cultura, e com elas fui convidada a expor na Colômbia”.
Outro momento marcante foi sua participação na Paris Fashion Week, ao lado do estilista cearense Ivanildo Nunes. “Produzi o vestido Boi Bumbá, usado pela apresentadora e modelo Niara Meirele durante o desfile em Paris. Meu intuito era mostrar a cultura e a arte feitas no Cariri”.
Patty conta que o artesanato transformou sua perspectiva de vida. “Hoje me sinto capaz de fazer tudo.” Seu maior desejo é transmitir seus conhecimentos à filha. “Mostro a ela a importância do artesanato, e ela leva isso adiante. É assim que a nossa arte nunca vai morrer.”
Patty Lima
Escultura em madeira
“É além de trabalho, é uma terapia”
Por Odara Creston

Filha da mestra Maria de Lourdes, demonstra na arte que faz o que aprendeu com sua mãe. Crédito: Reprodução/Instgram@arte.embarro
Dora Monteiro é artesã do Cariri e trabalha com barro há mais de 20 anos. Aprendeu o ofício com a mãe, também artesã, que foi sua grande inspiração para seguir o caminho da arte manual.
Encontrou no artesanato uma forma de sustentar os filhos. “Já era um hobbie, se tornou sustento e hoje considero quase uma terapia”, conta. Quando está na produção, explica, sua mente se desliga do mundo e ela consegue se conectar inteiramente com a escultura.
“Vejo neste trabalho uma herança e uma missão: dar continuidade ao legado da minha família.” Para isso, Dora ministra oficinas, ensinando outras mulheres e jovens a técnica do barro. Suas peças retratam o cotidiano, o folclore e a cultura popular do Cariri.
Dora assume se sentir orgulhosa de sua trajetória. “Acredito que o artesanato é essencial para preservar a história e mostrar ao mundo a força que a arte cearense tem”.
Dora Candido Monteiro
Esculturas em barro


