Artesãs que se reinventam e resistem
O artesanato transforma o trabalho em sustento, sentido e permanência
Por Odara Creston
Uma prática geracional, tradicional e familiar, que pode levar horas, dias ou até meses para ser concluída. É impossível medir o tempo exato de uma obra artesanal, justamente porque, como o próprio nome indica, trata-se de um trabalho manual, uma técnica que transforma a matéria-prima em objetos úteis, artísticos e simbólicos.
O artesanato reflete as diferentes culturas do mundo e, por muito tempo, foi associado a pessoas mais velhas. Surgido ainda na Pré-História, quando os primeiros artesãos moldavam utensílios para o uso cotidiano, ele atravessou séculos e se reinventou inúmeras vezes como forma de resistência e expressão cultural.

Cerâmicas feitas pelos povos da cultura da cerâmica cordada. Crédito: Creative Commons
Mais do que uma atividade econômica, o fazer artesanal também transforma vidas. No Ceará, mulheres encontraram nessa arte um caminho para a autonomia e o reconhecimento. Cada peça nasce da idealização e se completa com a venda, um processo que gera independência financeira, fortalece a autoestima e reafirma o valor do trabalho feito à mão.
Hoje, o artesanato é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. No Brasil, e especialmente no estado cearense, ele carrega uma rica mistura de influências de diversos povos indígenas, europeus e africanos. A professora do curso de Design-Moda da Universidade Federal do Ceará (UFC), Emanuelle Kelly, explica que, durante a colonização, ocorreu uma miscigenação de técnicas artesanais, o que torna o artesanato cearense tão forte e singular.
“A renda e tudo o que tem a ver com a arte têxtil podemos atribuir à colonização européia. Já os trançados em palha, por exemplo, são de origem indígena, enquanto a tecelagem e a confecção de miçangas bebem de uma matriz africana”, detalha.
Emanuelle acrescenta que há uma presença marcante da influência indígena no estado. “Se pudermos classificar, tudo o que é produzido com a palha de carnaúba, por exemplo, tem uma influência forte dos povos originários aqui do Ceará”, explica. Da herança portuguesa, permanecem bordados como o richelieu, as rendas e o labirinto. Já da cultura africana vieram as técnicas de estamparia e o uso de sementes em acessórios e jóias, tradições que, ao se entrelaçam, formam a identidade plural do artesanato cearense.
A coordenadora de Desenvolvimento do Artesanato da Secretaria da Proteção Social (SPS) do Ceará, Germana Mourão explica que Central de Artesanato do Ceará (CeArt) além de procurar defender e valorizar o artesanato, “tem o trabalho de resgatar as origens indígenas e quilombolas”. Valorizar o artesanato, portanto, vai além de reconhecer uma técnica ou um produto. É reconhecer os saberes ancestrais que atravessam gerações e sustentam a identidade cultural do Ceará.

Germana assumiu o cargo da coordenação em 2024. Crédito: Giovanni Scomparin
Criada em 1973, durante o governo de César Cals, a Central de Artesanato do Ceará (CeArt) surgiu com o propósito de valorizar e preservar as tradições artesanais do estado, gerando renda, promovendo a inclusão social de artesãos e artesãs e fortalecendo a identidade cultural cearense por meio dessa prática ancestral.
Vinculada à Secretaria da Proteção Social (SPS Ceará), a CeArt gerencia o Programa de Desenvolvimento Sustentável e Inclusivo do Artesanato do Estado do Ceará, responsável por ações que vão desde a emissão da Identidade Artesanal Cearense, documento que garante benefícios como isenção de ICMS e acesso a cursos, feiras e lojas próprias, até o credenciamento de artesãos e entidades artesanais para oportunidades de comercialização.
Loja sede da CeArt fica localizada Praça Luiza Távora, em Fortaleza. Crédito: Ariel Gomes
A instituição também certifica produtos com o Selo CeArt de Autenticidade, que assegura a originalidade e o valor cultural das peças, além de oferecer capacitação, curadoria e assessoramento técnico aos trabalhadores do setor.
Germana Mourão destaca o apoio estatal ao segmento. Apenas no primeiro quadrimestre de 2024, o Governo do Ceará investiu cerca de R$6,56 milhões no eixo “O Ceará que Preserva, Convive e Zela pelo Território”, dentro do qual está inserida a Central de Artesanato do Ceará.
“Apesar de essa prática existir há muitos anos, o Ceará segue sendo o único estado com uma política pública do artesanato realmente estruturada. É referência nacional”, afirma Germana. Ela relembra que o estado é o único do país que comercializa produtos adquiridos diretamente com quem produz, garantindo o pagamento justo pela peça, independentemente do desempenho de vendas nas lojas da CeArt.
De norte a sul, há artesanato espalhado por praticamente todo o território cearense. Regiões como o Cariri, Aracati e Majorlândia estão entre as mais procuradas, por concentrarem uma expressiva produção artesanal. Com exceção de Pires Ferreira, atualmente a CeArt atende todos os municípios do estado.
Em 2025, a “CeArt Itinerante” prestou serviços, atendimentos e orientações a artesãos e artesãs de cerca de nove municípios: Apuiarés, Tauá, Guaraciaba do Norte, Arneiroz, Aiuaba, Monsenhor Tabosa, Umirim, Ipueiras e Hidrolândia.


Ação da CeArt Itinerantes nos municípios do Sertão Central e Sertão de Canindé. Crédito: Bia Ferro Gomes
A orientadora da Célula de Produção Artesanal da CeArt, Ticianne Gomes, explica que a ação busca descentralizar os atendimentos. “A CeArt Itinerante é um projeto que visa levar aos artesãos do interior todos os benefícios concedidos pelo Programa do Artesanato Cearense”, afirma.
É também por meio desse programa que a CeArt acessa, cataloga e reconhece as diversas técnicas, referências e formas de artesanato produzidas no Ceará, um território extenso e culturalmente diverso, cuja riqueza se manifesta em produções originais e, muitas vezes, híbridas, resultado do encontro entre tradição e reinvenção.
Não à toa, o Ceará é referência nacional em Indicações Geográficas (IG), instrumento que reconhece produtos cuja qualidade, reputação ou características estão diretamente ligadas ao território onde são produzidos. O selo, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), funciona como uma forma de proteção e valorização do saber-fazer local.
O município de Pindoguaba, por exemplo, recebeu o reconhecimento pela produção artesanal de cestos, bolsas e outras peças feitas com a fibra do croá, planta nativa do semiárido. Já Jaguaribe foi reconhecida pela renda filé, técnica singular que consiste em bordar sobre uma rede de fios, originalmente de redes de pesca, formando desenhos delicados.

O município de Jaguaribe concentra a produção de peças artesanais em renda filé, conhecida pela qualidade, beleza e durabilidade. Crédito: Divulgação
Além desses, o estado reúne outras Indicações Geográficas reconhecidas nacionalmente, como as redes de Jaguaruana, a cachaça de Viçosa do Ceará, o algodão agroecológico dos Inhamuns, a renda de bilro de Aquiraz e a cerâmica artesanal de Ipu.
Esse reconhecimento evidencia a diversidade do artesanato produzido no Ceará. Entre as técnicas mais populares estão o bordado, forma de decoração têxtil que cria desenhos e relevos sobre o tecido; o crochê, marcado pelo entrelaçamento de fios com agulha de gancho; o trançado em palha de carnaúba, utilizado na confecção de objetos utilitários e decorativos; a argila, uma das técnicas mais antigas do estado, ligada às tradições indígenas e rurais; e a renda, caracterizada por um tecido leve e vazado, feito manualmente a partir do entrelaçamento de fios.
O mapa a seguir revela como os diferentes tipos de artesanato se espalham pelo Ceará.
O artesanato também é fashion!

Catarina Mina, Maurício Duarte e Marina Bitu, usaram técnicas diversas para criarem um tecido que ficou com o aspecto final de rede. Crédito: @agfotosite
Em um cenário em que a moda é constantemente associada a tendências passageiras e à produção em massa, o artesanato surge como um contraponto necessário, um modo de fazer que valoriza o tempo, o cuidado e a identidade de quem cria. No Ceará, essa relação entre arte e moda vem ganhando força e reconhecimento, mostrando que o fazer manual também dita estilo, sustentabilidade e pertencimento.
A professora do curso de Design-Moda da UFC, Emanuelle Kelly, explica que, apesar da possibilidade de um grande número de pessoas estarem envolvidas na produção, o artesanato se enquadra no conceito de slow fashion. O movimento propõe uma forma de produzir e consumir moda de maneira mais consciente, sustentável e ética.
“O slow fashion surge para bater de frente com o modelo acelerado do fast fashion, que prioriza apenas quantidade – quanto mais, melhor”, afirma. Nesse formato, a produção ocorre em menor escala, mas com mais qualidade, durabilidade e significado, conta.
Segundo Emanuelle, essa lógica também traz benefícios ambientais, já que utiliza materiais sustentáveis e incentiva o reaproveitamento de tecidos. “Sem contar que, dessa forma, a pessoa que está por trás da produção da peça é verdadeiramente valorizada”, acrescenta.
O artesanato incorpora todas essas características: cada peça carrega a técnica, a história e a personalidade de quem a cria, o que torna cada obra única. Para Germana Mourão, o trabalho da CeArt é justamente valorizar, apoiar e estruturar a atuação dos artesãos e artesãs do Ceará, garantindo que o artesanato seja reconhecido como atividade econômica, cultural e social.
Mais do que um produto estético, o artesanato cearense se firma como um manifesto de identidade e resistência. Ao unir tradição e inovação, ele mostra que o futuro da moda pode, e deve, ser feito também à mão, com tempo, alma e propósito.
A arte manual transforma a vida de mulheres
O artesanato, além de expressar a identidade e a cultura cearense, é também a principal fonte de renda para muitas famílias. Essa prática carrega traços de ancestralidade e memória, transmitidos de geração em geração. Como observa Daniele Caldas, consultora de produtos educacionais na área de moda do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), os saberes manuais “vêm das referências do lugar, da família e do território, onde o conhecimento se perpetua como herança cultural”.

Família perpetua legado artístico da matriarca, a Mestra da Cultura Maria de Lourdes Candido. Crédito: Patrícia Araújo/ Livro "Mãos que fazem história"
Em diversas regiões do interior e do litoral cearense, apontadas por especialistas como pólos de produção artesanal, o fazer manual está intrinsecamente ligado à vida comunitária. Segundo Daniele, dentro de um mesmo território, a arte reflete os modos de viver locais, desde a alimentação até as tradições herdadas dos antepassados. “Toda forma de cultura conecta as pessoas, e com o artesanato não é diferente”, explica.
A divisão tradicional dos papéis dentro das famílias também influenciou a consolidação desse ofício entre as mulheres. Enquanto muitos homens se dedicavam a atividades externas, cabia a elas o cuidado com a casa, os filhos e a alimentação. Nesse contexto, o artesanato surgiu como um espaço de criação, renda e, sobretudo, de liberdade. Para Daniele, o artesanato “é muitas vezes a complementação da renda familiar ou até mesmo o sustento total de uma casa”, colocando a mulher no papel de protagonista e provedora.
Conforme os dados da CeArt, o Ceará conta com mais de 43 mil artesãos e entidades cadastradas, desse número, cerca de 33 mil se declararam mulheres, o que representa 79% das pessoas que praticam o artesanato, um dado que reforça o protagonismo feminino na preservação e no fortalecimento do fazer artesanal. “A gente chama ‘artesão’ só por causa da língua portuguesa mesmo, mas a maioria na verdade são artesãs, são mulheres”, complementa Germana.
A professora Emanuelle Kelly, da Universidade Federal do Ceará, acrescenta que essa autonomia profissional gera respeito, não apenas dentro da família, mas também no próprio olhar da mulher sobre si mesma. “Elas aprendem a se respeitar ao perceber o valor do tempo e do esforço dedicados a cada peça”, observa.
Essa valorização pessoal é um processo de transformação. A escultora Bárbara Banida comenta que, muitas vezes, a virada de chave acontece quando a artesã deixa de se definir como “só artesã” e passa a se reconhecer como artista. “Quando isso acontece, muda tudo: o olhar sobre o próprio trabalho e o sentimento de pertencimento à arte”, afirma.
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Artista e gestora cultural, Bárbara Banida luta pelo 'direito à criatividade' de pessoas LGBTQIAP+. Crédito: Davi Rocha
A consultora de produtos educacionais na área de moda do Senac, Daniele Caldas frisa ainda que o artesanato é, ao mesmo tempo, fonte de sobrevivência e símbolo de empoderamento feminino, representando tanto a cultura, quanto a força da mulher, que é fundamental para que ela se sinta independente.
Essa força vai além do aspecto econômico: ela se manifesta no cotidiano, na autoestima e na forma como essas mulheres passam a enxergar suas trajetórias. A artesã Thalita Barbosa da Costa conta que redescobriu a si mesma por meio do trabalho manual. “Quando trabalhei de carteira assinada, deixei o artesanato até como hobbie. Não olhava para mim. Agora, me vejo nas minhas peças e na minha vida”, diz.
Hoje, Thalita dedica-se integralmente à arte que ama. “Voltei a ter qualidade de vida. O artesanato me deu isso, ele é vida”, resume. Para ela, retomar o fazer manual foi também uma forma de renascer: “Se eu não tivesse voltado a produzir, estaria apenas existindo. É muito bom poder dizer que agora estou realmente vivendo”.

Thalita e seus pais, Raimunda Gonzaga e Messias Sousa, na inauguração da loja da CeArt no Shopping Rio Mar Fortaleza. Crédito: Morena Lima
Mulher sabe empreender!
O empreendedorismo feminino vive um momento de expansão no Brasil, como aponta a 5ª edição da pesquisa Panorama PME, desenvolvida pela Serasa Experian. O estudo analisa o cenário das micro e pequenas empresas brasileiras, seus desafios estruturais e o fortalecimento do protagonismo das mulheres nos negócios.
O país encerrou julho de 2025 com 24,2 milhões de empresas ativas. Desse total, 93,8% são micro e pequenas empresas (MPMEs), que somam 22,7 milhões de negócios. Dentro desse grupo, os Microempreendedores Individuais (MEIs) representam 52,3%. No Ceará, são 633.063 empresas enquadradas como MEI, Microempresa (ME) e Empresa de Pequeno Porte (EPP).
O levantamento da Serasa Experian, revela que negócios liderados por mulheres apresentam gestão financeira mais equilibrada e menor inadimplência. Apenas 16% das empresas com sócias possuem restrições ativas, frente a 20% entre aquelas lideradas por homens, uma diferença estatisticamente relevante, que indica maior cautela e responsabilidade na administração dos recursos.
A pesquisa também dialoga com os relatos colhidos nesta reportagem. Para 46% das empreendedoras, a principal motivação para abrir um negócio foi a busca por flexibilidade de tempo. Outras 40% apontam a independência financeira como fator decisivo, enquanto 24% empreenderam para complementar a renda. Além disso, 18% afirmam que abriram seus negócios para “fazer o que acreditam”.

Feiras de artesanato promovem a arte, cultura e o empreendedorismo feminino. Crédito: Revista La Torre
Os dados indicam que o empreendedorismo feminino vem deixando de ser apenas uma resposta à necessidade e se consolidando como uma escolha estratégica de autonomia e controle da própria trajetória profissional.
Apesar dos avanços, os desafios estruturais permanecem. Sete em cada dez mulheres (71%) relatam dificuldades para conciliar trabalho e responsabilidades familiares. O preconceito também é recorrente: 68% afirmam já ter sofrido discriminação ao tentar se afirmar como líderes, 65% dizem precisar provar mais competência para serem levadas a sério e 57% relatam maior dificuldade de inserção em setores tradicionalmente masculinos.
Mesmo diante dessas barreiras, a tendência é positiva. A presença feminina no mundo dos negócios segue em crescimento, acompanhada por mudanças graduais, mas consistentes, na percepção sobre liderança e igualdade. Assim como as artesãs ouvidas nesta reportagem, empreender tem sido, cada vez mais, uma escolha. Como resume Thalita, não é um caminho fácil, mas é aquele que faz sentido: “é o que eu amo fazer”.
O artesanato continuará vivendo?
A prática artística manual existe há séculos e segue se reinventando, adaptando-se a cada tempo e lugar. Ainda que o artesanato seja frequentemente associado às gerações mais velhas, ele continua encontrando novas mãos, novas formas e novos espaços para permanecer viva.
A ascensão do crochê e das peças feitas de miçanga, por exemplo, é cada vez mais visível em grandes eventos de moda, como a São Paulo Fashion Week – que novamente contou com a presença da marca cearense Catarina Mina – e a Paris Fashion Week, onde o estilista cearense Ivanildo Nunes levou a artesã Patty Lima, representando o Cariri em uma das maiores passarelas do mundo.

Uma das peças de Catarina Mina na 57ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW). Crédito: Reprodução
No Ceará, a presença constante de feiras e exposições também reforça o engajamento das artesãs em divulgar e valorizar seu trabalho. Patty, que trabalha com escultura em madeira, conta que levar a cultura da sua cidade para o mundo é um sonho em movimento: “Quero que minha arte chegue ao maior número de corações possível, quero levar o Ceará para outros estados e países”.
A força de vontade de propagar a arte é notória, mas vem acompanhada de certa preocupação. Germana Mourão, da CeArt, observa que a maioria dos artesãos cadastrados ainda pertence às gerações mais velhas. “É preciso que haja movimentos para despertar a curiosidade e o interesse das novas gerações”, comenta.

Bolsa em madeira feita exclusivamente por Patty. Crédito: Anderson de Deus
A consultora do Senac, Daniele Caldas, também compartilha dessa apreensão e reforça que a continuidade depende de incentivo, acreditando que a desvalorização vem muitas vezes da falta de transmissão da arte familiar.
Para ela, é essencial despertar o interesse dos jovens, sejam eles descendentes de artesãos ou não, mostrando que o fazer manual também se adapta aos tempos digitais. “Hoje, o artesanato não é só a produção. É preciso saber se apresentar nas redes, usar o marketing a seu favor. Quanto mais as pessoas perceberem isso, mais vão se interessar”, explica.
A professora universitária Emanuelle Kelly, observa esse movimento acontecer de forma espontânea. “Vejo meninas com linha de crochê fazendo suas peças durante as aulas ou no ônibus. Elas andam com os kits, é natural”. Para ela, o artesanato não será esquecido. “Ele vai apenas se reinventar mais uma vez. Talvez algumas práticas mudem por escassez de matéria-prima, mas a essência continuará”.

Jovens têm vivido movimento crescente da arte do crochê. Crédito: Correiro Braziliense
A esculturista Thalita relata que, embora sua sobrinha de 12 anos não queira seguir a profissão, já cria suas próprias peças, um gesto simples que mantém viva a herança familiar. Todas as artesãs entrevistadas compartilham do mesmo sentimento: a arte não morre, ela se transforma. “Vai continuar em todos que vierem depois de mim”, afirma.
E continua. A estudante de Administração e dona da loja crochita, Maria Anita, de 24 anos, começou a praticar crochê de forma inusitada. Ninguém da família tinha ligação com o artesanato, mas foi pela necessidade de ter uma capa para livro que decidiu se aventurar na técnica e produzir a sua própria peça. Ao longo dos últimos dois anos, Anita aprofundou seus conhecimentos e aperfeiçoou suas habilidades, tudo através da internet - um movimento comum entre a Geração Z. No vestuário, encontrou uma forma de transformar o hobby em renda, criando roupas e acessórios autorais.
A reportagem conversou com Maria Anita, que contou sobre seu processo de descoberta do crochê, como começou a produzir e a vender, como percebe a relação da nova geração com o artesanato e o que acredita ser o futuro da arte manual.
Uma coisa é certa: o artesanato segue resistindo e se reinventando a cada geração, mas sempre fiel ao gesto manual que o originou. Uma reinvenção que ecoa a própria história da humanidade e que, com o passar do tempo, enfrentaria uma nova ruptura: a chegada da Revolução Industrial, quando o fazer manual começou a dividir espaço com as máquinas.


