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GUIADAS PELA VONTADE DE TRANSFORMAR COM AS PRÓPRIAS MÃOS

O artesanato cearense resiste à crise capitalista por meio de ações conjuntas

Por Giovanni Scomparin

Desde o século XVIII, com o avanço da Revolução Industrial, o artesanato passou a enfrentar um processo de declínio, mas também de reinvenção. Diante da modernização dos meios de produção e da mecanização das grandes fábricas, o trabalho manual foi sendo gradualmente substituído por máquinas mais rápidas e de custo mais baixo.

                                                                                          

Para sobreviver a esse novo cenário, muitos artesãos e artesãs deixaram de ser donos de seus próprios meios de produção e migraram para as manufaturas. No entanto, ali o trabalho era fragmentado: o artesão, antes responsável por cada etapa da criação, passou a executar apenas uma parte da linha de montagem. Com isso, perdeu a autonomia, a autoria e a satisfação de acompanhar o nascimento de uma peça do início ao fim.

Família trabalhando em oficina doméstica. Crédito: Reprodução

O conhecimento manual, transmitido de geração em geração, foi desvalorizado diante do chamado “saber industrial”, centrado no domínio das máquinas e na lógica da repetição. Ainda assim, o fazer artesanal resistiu.

 

Como resposta à mecanização, a segunda metade do século XIX testemunhou o surgimento do movimento Arts and Crafts, na Inglaterra. Artistas e teóricos da época passaram a defender o artesanato como forma de expressão criativa e alternativa à produção em massa, recuperando o valor estético e social do trabalho manual.


Essa resistência se reinventou ao longo do tempo. No início dos anos 2000, o espírito artesanal ganhou força com o movimento upcycling e o Do It Yourself (DIY) – “faça você mesmo” – que popularizou a ideia de criar, personalizar e valorizar o feito à mão, especialmente entre as novas gerações.

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Na esquerda, Strawberry Thief é um dos designs têxteis mais populares do Arts and Craft. Na direita, um exemplo de Do It Yourself (DIY). Crédito: Reprodução

Se antes o artesanato parecia condenado ao esquecimento na batalha contra a indústria, hoje ressurge como símbolo de exclusividade e autenticidade. Com uma sociedade dominada pela padronização e pelo consumo rápido, o produto artesanal ganha valor justamente por ser único, resultado do tempo, da habilidade e da sensibilidade humana que nenhuma máquina é capaz de reproduzir.

 

Como defende Germana Mourão, coordenadora de Desenvolvimento do Artesanato da Secretaria da Proteção Social (SPS) do Ceará, o futuro do artesanato está em constante desafio, mas também em resistência.

 

“A nova geração tem um desafio que é a Inteligência Artificial. Eu não sei se eles irão substituir [a gente], mas sei que o desafio será grande. Porém, a arte, o artesanato, continuarão salvando, porque é do ser humano, do ser. Por mais que a IA copie uma cesta de palha, ela nunca será como uma feita à mão. Eu quero ver a Inteligência Artificial fazer uma renda de bilros, eu não acredito!”, afirma a coordenadora.

Germana na 7ª Feira Nacional de Artesanato e Cultura (Fenacce). Crédito: Secretaria da Proteção Social do Governo do Estado do Ceará

Uma cadeia produtiva feita manualmente

 

Para além de uma forma de arte e expressão pessoal, o artesanato se consolida como um setor econômico em expansão. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o segmento movimenta cerca de R$100 bilhões por ano, o equivalente a aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. 

 

“Compreender a importância do artesanato requer um olhar para os números que demonstram sua relevância econômica. A estimativa é que o segmento representa 3% do Produto Interno Bruto (PIB), com um faturamento aproximado de R$102 bilhões e movimenta cerca de R$20 bilhões em compras de insumos da indústria. A receita deste mercado chega a R$50 bilhões anual”, afirma Décio Lima, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

 

Segundo a última pesquisa específica sobre o setor, realizada em 2007, o Brasil reúne mais de 8,5 milhões de artesãos, sendo 87% mulheres – o que evidencia o protagonismo feminino e o papel social do artesanato como fonte de renda, autonomia e reconhecimento para milhares de trabalhadoras.

 

Apesar da relevância econômica e cultural, o setor ainda convive com altos índices de informalidade. Dados da plataforma Data Sebrae indicam que o artesanato é a principal fonte de renda para três em cada cinco profissionais, mas apenas 40% possuem CNPJ.

 

Mesmo assim, observa-se um avanço na busca por formalização: pelo menos 45% dos artesãos já se enquadram como Microempreendedores Individuais (MEIs) ou Microempresas (MEs), e 20,9% estão ligados a associações ou cooperativas, o que revela um movimento crescente de organização e fortalecimento do segmento.

 

Nesse sentido, em outubro de 2015 foi publicada uma regulamentação da profissão no Brasil, por meio de um projeto do Ministério do Turismo que estabeleceu diretrizes para políticas públicas de fomento, criou a carteira profissional do artesão e autorizou o poder público a oferecer apoio técnico e profissional à categoria. Ainda assim, a contribuição real do setor para a economia ainda não é plenamente capturada pelas estatísticas oficiais.

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Laços são fortalecidos através do artesanato. Crédito: Agentes do Meio Ambiente

O IBGE, por exemplo, utiliza cerca de 19 atividades empresariais relacionadas ao artesanato na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) para estimar o tamanho da cadeia produtiva artesanal. As pesquisas mais recentes o inserem dentro do setor da Economia Criativa, que engloba também áreas como design, moda, artes, cultura e tecnologia.

“Com o surgimento do termo Economia Criativa, tornou-se cada vez mais difícil mensurar o impacto econômico do artesanato, inclusive no PIB. O artesanato está inserido na economia criativa, mas nem tudo que compõe a economia criativa está ligado ao artesanato. Tudo acaba entrando em um mesmo pacote, e isso cria um choque na hora de medir”, conta Germana Mourão.

 

Terra da luz, mas também do artesanato

 

No Ceará, uma das iniciativas que buscam enfrentar esse cenário é a criação da Identidade Artesanal, da Central de Artesanato do Ceará (CeArt). O documento funciona como um cadastro oficial de artesãos e entidades artesanais do estado. 

 

Além de mapear a atividade, o registro garante benefícios como isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), acesso a cursos de capacitação, apoio à comercialização e hospedagem na Casa do Artesão para participantes de feiras e eventos. Apenas em 2025, mais de 4 mil Identidades Artesanais foram emitidas, totalizando mais de 43 mil artesãos e entidades cadastradas.

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O setor de produção da CeArt já realizou mais de 360 atendimentos. Crédito: Larissa Feitosa

Saiba como emitir a identidade artesanal da CeArt

 

Entre 2015 e 2024, esses profissionais intermediaram a venda de mais de 500 mil peças, movimentando mais de R$24 milhões na economia cearense. Já em 2025, somente durante a Feira Nacional de Artesanato e Cultura do Ceará (Fenacce), uma das maiores do país, as vendas ultrapassaram R$600 mil, o que representa um crescimento de 30% em relação à edição anterior. Ao longo deste ano, o volume total de compras diretas realizadas junto aos artesãos, durante eventos apoiados pela CeArt, chegou a mais de R$894 mil.

 

Apesar dos avanços, os desafios ainda são muitos. A desvalorização do trabalho artesanal e a falta de domínio sobre precificação e gestão continuam entre as principais  barreiras do setor. Conforme dados da CeArt, mais de 20 mil artesãos cadastrados não são alfabetizados, grande parte deles oriunda do interior do estado, sem acesso a ferramentas que os permitam compreender o real valor do próprio ofício.

 

“Precisamos que o artesão ganhe dinheiro. Ele tem uma escala de produção demorada e pequena, e se vende um produto baratinho, como muitos ainda fazem, ele não se sustenta. É indignante quando alguém tenta pechinchar o valor de um produto artesanal em uma feira, mas paga o dobro ou o triplo por algo semelhante em uma loja de luxo em São Paulo”, defende Germana Mourão.

 

Para enfrentar essa realidade, a CeArt promove oficinas de empreendedorismo e precificação, além de realizar uma curadoria dos produtos comercializados em suas lojas, garantindo preços mais justos e lucrativos para os criadores. Além disso, o Ceará é o único estado que vende produtos comprados diretamente dos artesãos, o que garante que quem produziu receba o valor da peça, independente da venda dos itens nas lojas.

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Oficina realizada pela CeArt na Semana do Artesão em Fortaleza. Crédito: Ascom SPS

Com a missão de consolidar o Ceará como referência nacional no setor, a CeArt atua como ponte entre a arte, a economia e a identidade cultural. “O que está sendo feito aqui no Ceará está sendo muito bem pensado, com uma lógica de desenvolvimento do setor artesanal. É por isso que o artesanato tem trazido renda para o artesão e também visibilidade para o Estado. Um modelo que será replicado para outros estados do Brasil”, destacou em 2022 o então subsecretário de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas, Empreendedorismo e Artesanato do Ministério da Economia, Fábio Silva.

 

Entre as ações mais simbólicas está o programa “Artesã(o) na Loja”, que promove um rodízio semanal de artesãos nas lojas físicas da CeArt. A iniciativa, criada a partir da demanda dos próprios profissionais, aproxima o público das histórias e dos processos de criação de cada peça, fortalecendo o vínculo entre quem faz e quem consome o artesanato cearense. Até setembro de 2025, 67 artesãos e artesãs já participaram do programa, somando mais de R$ 39 mil em vendas diretas.

 

Em 2024, outro passo importante foi dado com a inauguração da primeira loja da CeArt fora do Ceará, localizada no Shopping Iguatemi Alphaville, em Barueri (SP). Atualmente, o estado conta com seis lojas físicas: quatro em Fortaleza e duas em Juazeiro do Norte.

Com 715 peças de artesãos de todo o Estado, a loja oferece produtos das diversas tipologias artesanais em um dos principais centros comerciais do País. Crédito: Reprodução

Conheça as lojas da CeArt

 

Para ampliar o alcance do artesanato cearense, em 2025, uma portaria do Governo do Ceará passou a regulamentar, por meio da CeArt, a concessão de passagens aéreas para a participação de artesãos e artesãs em feiras e oficinas realizadas em outros estados. Neste ano, foram quatro destinos contemplados: São Paulo, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais.

 

Saiba como conseguir a concessão de passagens aéreas

Empreendendo em tempos de crise

 

A trajetória do artesanato, no entanto, também é marcada por resiliência. Devido à  baixa rentabilidade e informalidade, durante a pandemia da Covid-19, o setor viveu uma de suas maiores crises. A impossibilidade de realizar feiras e eventos, principal meio de venda dos produtos, resultou em quedas expressivas de arrecadação e no fechamento de muitos empreendimentos. Segundo a Rede Artesanato Brasil, o isolamento social interrompeu um ciclo de crescimento contínuo.

 

A décima edição do estudo “O Impacto da Pandemia de Coronavírus nos Pequenos Negócios”, feita pelo Sebrae e pela FGV entre fevereiro e março de 2021, apontou que o artesanato foi o quinto setor mais afetado, com uma queda de 46% no faturamento. Mais da metade dos profissionais (56%) se declararam preocupados com o futuro.

 

Para driblar as perdas, muitos adaptaram suas técnicas, confeccionando máscaras e itens de proteção, que se tornaram fundamentais no período pandêmico. Outro ponto importante é que os artesãos buscaram novas formas de atuação, marcando presença nas mídias digitais e ampliando o alcance de seus produtos.

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Durante a pandemia da Covid-19, muitos artesãos voltaram-se para a fabricação de máscaras faciais, utilizando sua capacidade técnica para gerarem um novo rendimento para as famílias. Crédito: Governo do Estado do Ceará

“Queremos levar o nosso artesanato para além do Ceará. Em dezembro, iremos lançar o e-commerce da CeArt para atingir novos públicos e ampliar as nossas vendas”, afirmou a coordenadora Germana Mourão, em entrevista concedida em novembro de 2025. Porém, até o fechamento desta reportagem, em 26 de dezembro, o novo e-commerce ainda não havia sido lançado.

 

A iniciativa, no entanto, não é inédita. Em junho de 2020, em meio à pandemia, a CeArt chegou a lançar uma loja virtual como forma de impulsionar a renda dos artesãos. O projeto, porém, não teve continuidade, com o site fora do ar e o endereço eletrônico (www.lojaceart.online) indisponível.

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Captura de tela da versão teste da loja virtual da CeArt publicada pelo órgão na época. Crédito: Secretaria de Proteção Social

Nos últimos anos, os desafios do setor não se restringem apenas à comercialização. Dados da pesquisa “Desafios e Sonhos para o Artesanato Brasileiro”, promovida pela Rede Artesol, projeto que divulga, capacita e gera oportunidades para o ecossistema artesanal nacional, apontam que preservar o patrimônio cultural representado pelo artesanato tem se tornado um esforço cada vez mais complexo diante dos altos custos logísticos e dos impactos das mudanças climáticas.

 

A crise na disponibilidade de matérias-primas é um dos principais reflexos. As mudanças nos regimes de chuva e seca, os desmatamentos, as queimadas e a exploração predatória dos recursos naturais por grandes indústrias afetam diretamente o trabalho artesanal. Fibras, cipós, cascas, folhas, frutos, sementes, madeiras e palhas, elementos que dão origem à arte manual, tornaram-se mais escassos, encarecendo e limitando a produção.

 

“Temos um desafio em relação ao meio ambiente. Há dificuldades em extrair a matéria-prima dos produtos artesanais devido ao avanço das grandes indústrias. A competição é injusta – muitas vezes, elas nem aproveitam de fato todo o material, como fazem as artesãs. Por isso, a reciclagem e o reaproveitamento estão cada vez mais presentes na base conceitual do artesanato brasileiro”, afirma Germana.

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O setor industrial sofreu e ainda tem dificuldades de encontrar insumos para produção. Crédito: João Gabriel Lourenço/Ponte Jornalismo

Diante das crises, sejam econômicas, ambientais ou estruturais, o artesanato cearense segue se reinventando a partir da força de quem o faz. Em meio às dificuldades, o trabalho manual encontra no espírito coletivo um caminho de resistência, capaz de transformar desafios em oportunidades e reafirmar o valor da cooperação como estratégia de sobrevivência e crescimento.

 

No próximo bloco, você conhece uma forma de manter o artesanato cearense vivo e competitivo: o cooperativismo, um modelo empresarial alternativo reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como essencial para o desenvolvimento sustentável e apontado como uma das respostas possíveis aos desafios das crises globais.

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