Cooperativismo: união que fortalece a economia e o artesanato
Da crise à autonomia, o modelo coletivo impulsiona o trabalho artesanal, gera renda e transforma realidades no Ceará
Por Giovanni Scomparin
O cooperativismo tem, de fato, uma história de crescimento em tempos de crise, e essa tendência foi novamente evidenciada durante a pandemia da COVID-19, como pontuou Nicédio Nogueira, presidente do Sistema OCB/CE.
“Há um fator muito concreto: as crises expõem fragilidades individuais. Pequenos produtores, autônomos e trabalhadores isolados perdem escala, crédito e acesso a mercado. A cooperativa surge como resposta econômica racional, não como ação social. Por isso, em crise, o cooperativismo tende a crescer e se fortalecer. Não porque favoreça o modelo, mas porque oferece uma estrutura empresarial mais preparada para atravessar instabilidade, proteger trabalho e sustentar atividade econômica quando o ambiente de mercado se torna mais hostil”, complementa.

Presidente do Sistema OCB/CE, engenheiro agrônomo e especialista em Gestão de Cooperativas e vice-presidente da Federação dos Sindicatos e Organizações das Cooperativas dos Estados da Região Nordeste. Crédito: Kardel Producoes Fotograficas
A afirmação é reforçada na prática por Claudeirton de Paula, mobilizador social da Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras do Projeto Vencer Juntos (Coopervej), sediada em Aracati, a 274 km de Fortaleza. Criada em 2022, a cooperativa nasceu da necessidade de garantir sustentabilidade econômica e fortalecer a comercialização dos produtos agrícolas e artesanais desenvolvidos pelos membros da Associação Vencer Juntos (APROVEJ).
Mista em sua composição, a Coopervej atua em duas frentes: agricultura e artesanato. Hoje, são cerca de 52 cooperados, sendo 23 artesãos, dos quais 93% são mulheres, número que reflete o protagonismo feminino tanto no fazer artesanal quanto na agricultura familiar.
Entre os produtos, a diversidade é grande. Além dos alimentos – como frutas, castanhas, mel e doces –, há peças produzidas com folha de carnaúba, crochê, macramê, bordado labirinto, madeira e outros materiais regionais, que expressam a identidade cultural do Litoral Leste cearense.

Claudeirton de Paula é mobilizador social da cooperativa. Crédito: Daniel Calvet
A Coopervej é responsável por todo o escoamento da produção, seja nas feiras e congressos de artesanato e agricultura, ou por meio da comercialização local, que inclui também programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de manter uma loja física, o Espaço Aracati, localizado no terminal rodoviário do Centro de Aracati, com apoio da Prefeitura Municipal, onde ainda funciona a sede da cooperativa.
Endereço: Rua Coronel Alexandrino, s/n, Centro de Aracati (CE)
Horário de funcionamento: Seg à Sex, 9h às 17h

A inauguração do espaço aconteceu em 2023. Crédito: Prefeitura Municipal de Aracati
Mais do que comercializar, a Coopervej também investe em formação e capacitação. Em parceria com o Sebrae, promove oficinas de gestão, cursos de precificação e diagnósticos de mercado, ajudando os cooperados a compreender melhor o valor de seus produtos e fortalecer sua autonomia financeira.
O modelo que inspira o grupo segue os princípios do cooperativismo, uma forma de empreender coletivamente, presente em diversos setores da economia. Para facilitar a organização, as cooperativas são divididas em oito ramos: Agropecuário, Consumo, Crédito, Infraestrutura, Saúde, Seguros, Transporte e Trabalho, Produção de Bens e Serviços (TBS).
Para o presidente do Sistema OCB/CE, a definição do cooperativismo seria “um modelo de negócio baseado na organização coletiva de pessoas que se unem para exercer uma atividade econômica de forma estruturada. Isso acontece por meio da constituição de sociedades cooperativas, que são empresas de natureza civil, com finalidade econômica, organizadas para operar no mercado como qualquer outra organização”.
O cooperativismo promove um ciclo de desenvolvimento, reunindo pessoas com um propósito comum. Juntas, elas fortalecem seus negócios, geram trabalho e renda e movimentam a economia. Os cooperados são, ao mesmo tempo, donos e beneficiários do empreendimento: participam das decisões, compartilham resultados e reinvestem no próprio crescimento. Mais do que gerar lucro, as cooperativas colocam as pessoas no centro, promovendo prosperidade coletiva e sustentabilidade.
“A importância do cooperativismo para o desenvolvimento social e econômico vem exatamente dessa estrutura. Ele organiza a atividade econômica de forma mais distribuída, fortalece negócios locais, amplia acesso a mercados, crédito e serviços, e mantém a riqueza gerada circulando nos próprios territórios. Não é assistência, é atividade econômica organizada, com impacto direto em renda, emprego e desenvolvimento”, conta Nicédio Nogueira.
As cooperativas são guiadas por sete princípios fundamentais:
“No Sistema OCB/CE a gente costuma dizer que o cooperativismo é como um rio que corre entre duas margens. De um lado está o capitalismo, com sua lógica de mercado, eficiência e competitividade. Do outro, o socialismo, com a preocupação social e coletiva. O cooperativismo não nega nenhuma dessas margens. Ele corre entre elas, aproveitando o que cada uma tem de melhor, transformando isso em um modelo de negócio viável, democrático e socialmente responsável”, conta o presidente do órgão.
O Sistema de Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) é a entidade responsável pela representação institucional, defesa e desenvolvimento do cooperativismo no país. Atua na promoção de políticas públicas, na capacitação de cooperados e na valorização do modelo cooperativista como instrumento de inclusão social e desenvolvimento econômico.
Em nível estadual, o Sistema desempenha o mesmo papel no Ceará, oferecendo apoio técnico, jurídico e educacional às cooperativas cearenses, além de articular parcerias com o poder público e iniciativas privadas. Juntos, os sistemas nacional e estadual formam uma rede que fortalece o setor, estimula o protagonismo dos cooperados e amplia o impacto social e econômico do cooperativismo brasileiro.
Mas não é de hoje. O movimento cooperativista tem raízes no século XIX, quando, na cidade de Rochdale-Manchester (Inglaterra), em 1844, um grupo de trabalhadores decidiu se unir para comprar produtos básicos a preços justos. O princípio era simples: união, igualdade e transparência. Juntos, eles criaram um modelo que garantia condições mais dignas de consumo e repartiam os lucros entre todos.
No Brasil, o cooperativismo começou a ganhar forma a partir de 1889, em Ouro Preto (MG), com a fundação da Cooperativa Econômica dos Funcionários Públicos, voltada ao consumo de produtos agrícolas.
Mais de um século depois, o movimento se expandiu e hoje tem alcance global. São mais de 3 milhões de cooperativas no mundo, reunindo 1 bilhão de pessoas. No Brasil, existem 4.300 cooperativas e 25,8 milhões de cooperados, responsáveis por gerar 578 mil empregos diretos, segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025 (ano-base 2024), elaborado pelo Sistema OCB.
Esse crescimento, segundo o agrônomo com especialização em gestão de cooperativas, Nicédio Nogueira, está ligado à capacidade do cooperativismo de responder a desafios estruturais do país, como a concentração de mercado, o alto custo do crédito, a instabilidade no emprego e a pressão sobre pequenos e médios negócios.
Para ele, três fatores explicam a expansão do modelo no Brasil: o ganho de escala com redução de riscos, já que a organização coletiva amplia o poder de negociação e o acesso a mercados; a governança compartilhada e a distribuição dos resultados, que garantem maior equilíbrio econômico entre os cooperados; e a profissionalização do setor, que avançou em gestão, inovação e sustentabilidade, aumentando a credibilidade e a atratividade das cooperativas.
“O cooperativismo cresce. Não porque seja uma resposta emergencial, mas porque se consolidou como um modelo de negócio moderno, competitivo e ajustado às demandas do presente. Ele não substitui o mercado, mas melhora o funcionamento dele”, complementa.
No Ceará, o setor também avança. Até 2024, o estado registrava mais de 145 mil cooperados distribuídos em 129 cooperativas, que empregam mais de 11 mil pessoas e movimentam R$6,82 bilhões em ingressos – um aumento de 11,4% em relação a 2023. Os ativos também cresceram 14,9%, alcançando R$4,51 bilhões. No cenário nordestino, o Ceará ocupa o 2º lugar em número de cooperativas e geração de empregos e ficando atrás apenas da Bahia e Pernambuco no total de cooperados.
O destaque do Ceará não aconteceu por acaso nem por um único motivo. Ele é resultado de decisões acumuladas ao longo do tempo, que trataram o cooperativismo como uma estratégia econômica, e não como uma iniciativa periférica. O estado construiu uma base cooperativista diversificada, presente em diferentes ramos e distribuída por todo o território, segundo Nicédio.
Para ele, o Sistema OCB/CE também teve papel central nesse processo, com investimento institucional contínuo na organização e no fortalecimento das cooperativas, por meio da formação de dirigentes, do apoio técnico à gestão, do estímulo à profissionalização, da orientação jurídica e da articulação com políticas públicas. É a partir dessa atuação que o cooperativismo se integra ao desenvolvimento regional.
No Ceará, muitas cooperativas estão diretamente ligadas à geração de emprego local, à interiorização da renda e à permanência das pessoas em seus territórios, criando um ciclo virtuoso, com mais atividades econômicas, trabalhos, estabilidade e adesão ao modelo.
“É isso que outros estados podem aprender com o Ceará. O cooperativismo precisa ser tratado como política de desenvolvimento, não como exceção. É preciso um ambiente institucional favorável, investimento em formação e gestão, diálogo com o poder público e visão de longo prazo. Onde o cooperativismo é levado a sério como modelo de negócio, ele gera emprego, renda e desenvolvimento de forma consistente e o Ceará é prova disso”, afirma o presidente Nicédio Nogueira.
Lugar de mulher é também no Cooperativismo!
Apesar do crescimento no número de homens cooperados, que aumentou 8,7% em 2024, sobretudo nos ramos de TBS, Crédito, Saúde e Agropecuário, são as mulheres que mais se destacam no cooperativismo cearense. Segundo dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, elas representam 59,5% dos cooperados, mais de 86 mil mulheres, superando a média nacional de 41%. O avanço é notável: em 2022, eram 50.167 cooperadas, o que significa um crescimento de 72,54% em apenas dois anos.
As mulheres foram maioria absoluta no ramo de Trabalho, Produção de Bens e Serviços, onde respondem por 80% dos mais de 75 mil cooperados. Isso mostra que, nos espaços onde o cooperativismo se organiza em torno do trabalho e da produção, elas encontram mais oportunidades e protagonismo.
Nos ramos de Crédito e Saúde, a presença feminina também é expressiva, 45% e 43%, respectivamente. Já em setores como Consumo, Infraestrutura, Transporte e Agropecuário, os homens ainda predominam, chegando a praticamente 100% da participação em alguns casos.
“Cooperar é mais do que trabalhar juntas, é se reconhecer como parte de algo maior, que gera oportunidades, pertencimento e impacto real na comunidade e na vida de cada mulher. Aqui, elas encontraram apoio, aprendizado e acesso a direitos que lhes são negados diariamente”, afirma Selene Caracas, coordenadora do comitê Elas pelo Coop Ceará.

Selene também é conselheira de administração do Sicredi Veredas. Crédito: Kennedy Campelo
O movimento Elas pelo Coop tem se consolidado como uma importante ferramenta de fortalecimento do papel das mulheres no cooperativismo brasileiro. Criado pelo Sistema OCB, o programa promove formação, intercâmbio de experiências e o incentivo à representatividade feminina nas cooperativas.
No Ceará, o movimento busca reunir lideranças de diferentes setores e inspirar novas mulheres a participarem e criarem seus próprios comitês femininos em todo o Estado. Porém, entre as 144 cooperativas do estado que estão cadastradas no sistema OCB, apenas 36 fazem parte do movimento.
“O Elas pelo Coop é um dos movimentos que eu mais acredito ser transformador dentro do cooperativismo. As mulheres criam redes de aprendizado e confiança, passam a se ver umas nas outras e percebem que os desafios são parecidos – e que nenhuma precisa enfrentá-los sozinha. Dentro do comitê, há capacitação e uma transformação pessoal e profissional. Essa voz coletiva das mulheres está redesenhando o futuro do cooperativismo!”, afirma a coordenadora.
Mesmo com o avanço na base cooperada e entre os empregados, a presença feminina em cargos de liderança ainda é reduzida. Apenas 24% dos dirigentes das cooperativas cearenses são mulheres – 366 líderes em um total de 1.501 cargos de direção, segundo o Anuário 2024. A exceção está no ramo de Trabalho, Produção de Bens e Serviços, onde elas já ocupam 54% das posições de liderança. Nos demais setores, a direção segue majoritariamente masculina.
Solene avalia que, embora ainda existam desafios, especialmente para alcançar os cargos mais altos, o cenário vem passando por mudanças significativas. “As mulheres sempre estiveram nas bases, nas organizações, no cuidado. Por muito tempo, porém, permaneceram invisíveis nas decisões. Agora estão assumindo o protagonismo com coragem e consciência. No Ceará, encontramos um terreno fértil: o cooperativismo. Um espaço onde pudemos transformar o cuidado em liderança e a solidariedade em poder coletivo. Então crescemos, florescemos. Era só o que queríamos, um espaço para ter voz”, diz.
Cooperativismo é o futuro?
Diante das transformações tecnológicas, crises econômicas e novas formas de trabalho, o cooperativismo tem se mostrado um modelo empresarial capaz de unir propósito e sustentabilidade.
Conforme apresentado pelo Anuário do Cooperativismo Brasileiro, o número de cooperativas e de cooperados cresce ano após ano, mesmo em períodos de crise. Na contramão do individualismo e da competição que o capitalismo pede, o cooperativismo surge como uma alternativa de empreender que coloca as pessoas no centro das decisões.
Em reconhecimento a esse fenômeno global, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2025 como o Ano Internacional do Cooperativismo, destacando a relevância do setor na construção de um futuro mais equitativo e resiliente. A decisão reforça o papel das cooperativas de cumprir os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A iniciativa surge na sequência do sucesso do primeiro Ano Internacional das Cooperativas, em 2012, que muito contribuiu para a sensibilização para o importante papel das cooperativas na promoção do desenvolvimento sustentável. Crédito: Cooperativas de las Américas
“O cooperativismo brasileiro segue firme em sua missão de transformar realidades. Mesmo em um cenário global desafiador, marcado por instabilidades econômicas, climáticas e sociais, o movimento cooperativista resiste e avança. Um modelo de negócios centrado em pessoas, movido por valores e guiado pela cooperação. Que este seja um convite à ação: a seguirmos juntos, com coragem e propósito, construindo um país mais justo, próspero e colaborativo”, afirma Márcio Lopes de Freitas, presidente do Sistema OCB.

Em 2024, Márcio foi reconduzido a presidência do Sistema OCB. Crédito: Sistema OCB
A perspectiva de futuro também se apoia na formação de novas gerações. Iniciativas como o Programa JovemCoop, desenvolvido pelo Sistema OCB/CE, buscam despertar o interesse de jovens para o modelo cooperativista, promovendo capacitação, protagonismo e engajamento social.
Para Claudeirton de Paula, da Coopervej, esse é um horizonte inevitável. “Não tenho dúvida que o cooperativismo será uma das saídas para as crises mundiais. O próximo grande salto da humanidade será quando perceberem que o ato de cooperar é mais importante do que competir um com outro. Eu levanto essa bandeira e apoio o cooperativismo para o futuro”, defende.
Entretanto, o cooperativismo ainda enfrenta desafios estruturais para se consolidar como uma base sustentável de desenvolvimento no futuro. Segundo o presidente do Sistema OCB/CE, Nicédio Nogueira, esses entraves passam, principalmente, pela necessidade de fortalecer a gestão e a governança das cooperativas, ampliando a profissionalização, o planejamento estratégico e a incorporação de tecnologia e inovação, exigências cada vez maiores de um mercado competitivo.
Outro desafio central é a integração das cooperativas às cadeias produtivas mais amplas e aos mercados de maior valor agregado. Barreiras logísticas, dificuldades de acesso aos mercados finais e a concorrência com grandes grupos empresariais ainda limitam o crescimento, tanto no campo quanto nas áreas urbanas.
Há também um desafio institucional, que envolve o reconhecimento do cooperativismo como política pública de desenvolvimento econômico e social. Para avançar, Nicédio aponta como caminhos a ampliação da formação e da profissionalização das lideranças, o fortalecimento de políticas públicas de apoio, o investimento em inovação e digitalização e a consolidação da identidade cooperativista como um modelo empresarial competitivo, sustentável e estratégico para o desenvolvimento territorial.
“O cooperativismo tem mostrado que não é apenas uma alternativa em momentos de dificuldade, ele é uma força estruturante da economia. Superar esses desafios não é apenas uma necessidade setorial; é uma condição para que o cooperativismo continue contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento social e econômico do estado”, defende.
Em um mundo cada vez mais automatizado, o cooperativismo traz o valor humano do trabalho e da solidariedade. Se o futuro tende à tecnologia, ele também exigirá mais empatia, interdependência e colaboração, princípios que há séculos sustentam tanto o fazer artesanal quanto o espírito cooperativo. Ambos resistem e se reinventam, guiados pela vontade de transformar com as próprias mãos.
E são justamente essas mãos, firmes e criativas, que seguem moldando histórias de autonomia e resistência. No próximo bloco desta reportagem, mulheres artesãs da Coopervej, mostram como o artesanato e o cooperativismo caminham juntos na construção de independência, identidade e força coletiva.


