top of page
unnamed__1_-removebg-preview.png

LUCIANA: ENTRE FIOS, PALHAS E SONHOS

Por João Pedro Maia

Luciana aprendeu o artesanato ainda criança e hoje transforma o trabalho manual em renda, autonomia e continuidade cultural. Crédito: Arquivo Pessoal

Na Terra dos Bons Ventos, em Aracati, Luciana começa sua rotina cedo. Começa o dia levando o filho à escola e, antes das oito, já está no box herdado dos pais, rodeada por fios de crochê, palhas trançadas e peças de macramê. Aos 42 anos, vive do que aprendeu ainda menina: o artesanato.

A infância foi marcada por mudanças e desafios. Quando o pai adoeceu, a família deixou Russas, sua cidade natal, e se mudou para Aracati. Com a ajuda de um tio, ele passou a ir a Fortaleza em busca de tratamento, enquanto a família recomeçava a vida em Aracati com uma pequena banca de artesanato. “Ele começou vendendo as peças da minha mãe e de outros artesãos. Daí veio o nosso sustento”, recorda a artesã.

Com um sorriso tímido e o olhar doce de quem carrega memórias antigas, ela se lembra da infância vivida entre linhas e cores. “Com dez anos eu já ficava tomando conta da lojinha enquanto minha mãe ia fazer o almoço”, conta. Curiosa, aproveitava cada brecha para observar os vizinhos artesãos e aprender novas técnicas. Começou lixando, envernizando e empalhando madeira. Mais tarde, com a ajuda de um vizinho, aprendeu a confeccionar pulseiras de macramê, técnica com a qual trabalha até hoje, e até canecas de gesso feitas com latinhas de cerveja.

Não importava o material ou a dificuldade: Luciana só queria aprender.

Desde então, o artesanato deixou de ser “brincadeira de criança” e passou a ser o sustento da vida de Luciana. A mesma banquinha que um dia foi do pai e depois da mãe, hoje garante o alimento dela e dos dois filhos.

Luciana trabalha com três materiais: a palha, a macramê e os crochês. A rotina, no entanto, está longe de ser simples. “Tem dia que eu chego em casa às sete da noite, faço o jantar, limpo a casa, boto menino pra dormir e volto a trabalhar até meia-noite”, conta. Em períodos de feira ou de grandes encomendas, o ritmo fica mais puxado: ela e sua equipe já chegaram a produzir 500 peças em apenas quinze dias. “Eu sou a cabeça. Tenho as mãos e os pés trabalhando comigo”, brinca.

Sua trajetória é marcada por esforço e persistência, mas também por conquistas. Foi através do artesanato que ela conseguiu uma casa própria, transporte e o sustento diário. “Quando eu vejo o resultado do meu trabalho, sinto que posso tudo. É como se cada peça fosse uma vitória”, conta.

Ainda assim, nem sempre é fácil conciliar o ofício com as demandas da vida cotidiana. Como mãe solo, Luciana se divide entre a criação dos filhos, os afazeres domésticos e as encomendas. “É uma correria, mas é a vida que eu escolhi. E eu me orgulho dela”, afirma com um sorriso que mistura cansaço e realização.

Em meio à rotina intensa, Luciana ainda encontra tempo para aprender. 

Microempreendedora individual, participa ativamente das atividades promovidas pelo Sebrae e pela Sala do Empreendedor. Só neste ano, já concluiu cerca de oito cursos, entre precificação, controle de caixa e redes sociais. “A gente nunca aprende na hora, vai aprendendo um pouquinho de cada vez”, conta. Os cursos, segundo ela, ajudaram a compreender melhor o valor de cada peça que produz.

Luciana lembra que já enfrentou situações em que tentaram desvalorizar sua arte. “Às vezes acham caro pagar R$300 em um kimono feito à mão, mas compram uma roupa de marca pelo mesmo preço e não reclamam. O problema é que muita gente não entende o valor da cultura, do tempo e da dedicação que tem em cada peça”, desabafa.

A artesã é firme quando precisa se impor. “A mercadoria é minha, o preço é meu. Eu boto o valor justo. Se não der pra aquele cliente, vai dar pra outro. Porque eu sei o valor do que eu faço.” Para Luciana, o artesanato é mais do que um meio de sobrevivência, é uma expressão de identidade, resistência e orgulho.

Durante a conversa, Luciana, que estava na Central de Artesanato do Ceará (CeArt), recebeu clientes interessados nas peças expostas. Enquanto os atendia, era possível perceber o quanto é atenciosa e dedicada com quem se encanta pelo seu trabalho e pelo das colegas.

Entre seus clientes mais fiéis estão arquitetos, designers e decoradores, que frequentemente encomendam peças personalizadas. Na maioria das vezes, o cliente leva um modelo para que Luciana adapte ao seu estilo. O resultado é sempre único. “Eu olho, estudo e crio do meu jeito. Nunca sai igual, porque cada artesão tem sua alma”, diz, com um sorriso sereno.

Embora costume produzir sozinha, Luciana reconhece o valor do trabalho coletivo. Quando surgem pedidos maiores ou mais complexos, as parcerias com outras artesãs da mesma tipologia se tornam essenciais. “Recebi uma encomenda grande, de palha com crochê. Aí ou eu faço a palha ou eu faço o crochê. Fulano faz uma coisa, eu faço outra, e a gente junta pra entregar a encomenda”, explica.

Essa lógica de colaboração também se estende para além das encomendas. Luciana é integrante da Cooperativa Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras do Projeto Vencer Juntos (Coopervej), cooperativa formada também por artesãos e artesãs de diversas tipologias do Litoral Leste do Ceará. O grupo surgiu com o propósito de fortalecer a produção local e garantir melhores condições de trabalho e de comercialização.

"Eu aprendi aqui na Coopervej, que no artesanato não podemos pensar só em si, porque cooperar é trabalhar em grupo trocando conhecimento, se ajudando e crescendo juntos”, conta.

Luciana também gosta de dizer que o artesanato, além de fonte de renda, é fonte de amizades. Já aconteceu de clientes se tornarem amigos.

“Eles mandam fotos das peças nas casas deles, me marcam na internet, mostram como estão usando o que eu fiz. É tão bonito ver que aquilo que saiu das minhas mãos agora faz parte da vida de outra pessoa”, fala, com os olhos brilhando.

Ela acredita que o futuro do artesanato depende da valorização e do interesse das novas gerações, e se anima sempre que vê jovens apaixonados por trabalhos manuais. Mesmo tímida, já concedeu entrevistas e recebeu convites para ministrar cursos e oficinas, embora ainda hesite. “Tenho medo de não conseguir ensinar direito, mas quem sabe um dia eu perco essa vergonha”, diz, entre risos.

O que não lhe falta é vontade de ver o artesanato ganhar mais reconhecimento. “O artesanato é cultura. É uma história viva. Quem dá valor entende que cada peça tem alma, tem tempo e tem amor.”

Ao encerrar, Luciana me mostra os produtos à venda na CeArt, entre eles, um crucifixo de crochê que ela “morre de ciúmes” e cogitou ficar pra si de tanto carinho que tem pela peça. “Hoje o artesanato é minha paixão, minha vida, meu sustento, meu orgulho. É o que me faz ser quem eu sou”, resume.

Entre fios, palhas e sonhos, Luciana segue tecendo o próprio destino, com paciência, amor e a certeza de que, em cada ponto, há um pedaço de sua história.

Luciana Lima

Artesã de palha de carnaúba, crochê e macramê

  • Instagram
  • Whatsapp
bottom of page