“O artesanato é tudo, o artesanato é vida”
Por Odara Creston

Após se afastar do ofício por anos, Thalita retomou o artesanato durante a pandemia e hoje vive da produção manual em Aracati. Crédito: Arquivo Pessoal
Seguindo o fluxo natural da vida, ao nascer é esperado que logo se aprenda a andar e, depois, a falar. Com Thalita Barbosa da Costa não foi diferente, mas, antes mesmo de dar os primeiros passos, ela já tinha contato com o artesanato. Filha e neta de artesãs, a arte do trabalho manual chegou de forma natural à sua rotina.
Aquilo que, por muitos anos, foi o sustento de sua família, para ela era apenas um passatempo. Desde muito nova, Thalita aprendeu a manusear a palha de carnaúba. “Em casa, ficam umas cinco pessoas preparando a carnaúba para que possamos comercializar”, conta. A artesã explica que as práticas manuais sempre estiveram presentes em sua vida e pretende manter a tradição viva: “Quero ensinar isso aos meus filhos quando os tiver”.
Com o passar dos anos, no entanto, Thalita acabou se afastando do ofício. Depois de conseguir um emprego com carteira assinada, a rotina exaustiva da escala 6x1 a impediu de dedicar tempo à arte. Até que, durante a pandemia da Covid-19, ao ser desligada da empresa, o artesanato a reencontrou. “Vi no artesanato uma forma de continuar sustentando minha casa e também um alento nos dias difíceis”, relembra.
A arte devolveu à cearense a qualidade de vida e o convívio com a família. Ela admite que nem sempre é fácil. “A concorrência muitas vezes não é justa, ou as pessoas não querem pagar o valor das nossas peças. É uma desvalorização desgastante”, mas garante ser muito mais feliz hoje do que quando estava afastada das práticas manuais.
Atualmente, Thalita trabalha com trançado de carnaúba, crochê, macramê e está começando a se aventurar no labirinto, técnica tradicional de bordado e desfiado em tecido, típica do Ceará. “Gosto de variar para não deixar as técnicas caírem no esquecimento e também para ampliar meu catálogo”, explica.
Apesar do amor pela arte, Thalita teme que algumas práticas desapareçam com o tempo, seja pela escassez de matéria-prima ou pela falta de artesãos. “A geração mais nova não gosta de técnicas demoradas, então tenho medo de que fiquem no esquecimento”, lamenta. O labirinto, diz ela, é “uma técnica demorada, complexa e muito linda”, mas percebe certo desinteresse em sua comunidade.
Mesmo assim, a artesã se mostra confiante no futuro do ofício. “O artesanato ressurgiu na minha vida como um escape financeiro, mas hoje é muito mais do que isso, é uma válvula de escape emocional”, define. Para Thalita, seu trabalho é também uma forma de terapia e de gratidão: “Me sinto grata em perceber uma valorização crescente na minha região”.
Nascida e criada em Aracati, Thalita cresceu em meio a uma tradição artesanal que ultrapassa sua família. Hoje, ela é cooperada da Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras do Projeto Vencer Juntos (Coopervej), que há dois anos atua fortalecendo o artesanato local.
Segundo ela, foi por meio do cooperativismo e da união entre os cooperados que seu trabalho ganhou mais visibilidade, tanto em seu município quanto nas cidades vizinhas. Além disso, o contato com outros artesãos possibilitou trocas e aprendizados com diferentes técnicas.
“A cooperativa tem sido uma grande aliada, ajudando a educar as artesãs sobre o real valor do nosso trabalho e movimentando a economia local. A união que existe dentro é uma das coisas de que mais gosto. Sei que posso contar com quem está ali”.
Ela também reconhece o papel do poder público nesse processo: “Hoje temos a loja Soul Palha, uma loja colaborativa de várias artesãs e artesãos daqui”, comemora. Orgulhosa das conquistas, Thalita expressa um desejo: “Queremos ser valorizados como artistas. Somos tão artistas quanto os da pintura ou da música.”
Para ela, o artesanato é mais que sustento, é resistência. “É uma prática tradicional que eleva a autoestima e a qualidade de vida. Acredito que, se mais pessoas experimentassem, criariam gosto em fazer.” Thalita não se vê mais sem o artesanato em sua rotina. “Se não fosse ele, eu estaria só existindo, e não vivendo. Viver de arte é difícil, mas é lindo – e me sinto forte por isso.”
Mais do que uma fonte de renda, o artesanato é, para Thalita, uma maneira de resistir à lógica do fast fashion e manter viva a cultura centenária de Aracati.
Thalita Barbosa
Artesã de palha, crochê e macramê


